6. GERAL 29.5.13

1. GENTE
2. MEMRIA  O DEMOCRATA RADICAL
3. POLCIA  MORTE NA CATEDRAL
4. ESPORTE  MAME, EU QUERO MMA
5. CIDADES - PARIS AINDA MAIS PERTO DO SENA
6. COMPORTAMENTO  FILHOS? NO, OBRIGADA

1. GENTE
JULIANA TAVARES. Com Thas Botelho

DEPOIS DO CRCULO DE FOGO
Continuar na posio de modelo mais importante do mundo e ser me duas vezes garantem a GISELE BNDCHEN, 32, alguns merecidos privilgios. Posar de lingerie, hoje, s se for para sua prpria marca. Esta foto foi feita, a pedido dela, na sute de um hotel de luxo enquanto a pequena Vivian, de 5 meses, estava bem acomodadinha em outro quarto, aos cuidados da av. A cada duas horas, Gisele parava as fotos para amament-la. A experincia com os dois partos naturais tambm incentivou a modelo a dar opinies em um programa, atualmente no ar, em que teoriza sobre o tema. Exemplo: "Tem dor, mas, depois que passa o momento crculo de fogo", vem o xtase". O corset no  para esconder nada. Esbeltssima e com as sardinhas  mostra, Gisele parece ter voltado aos 18 anos.

UM SOPRO DE LIBERDADE
Desde que se casou com o prncipe William, herdeiro nmero 2 do trono da Inglaterra, KATE MIDDLETON segue  risca o roteiro de maneiras, constries, sorrisos e atuaes prescritos pelo protocolo. Mas, foi s ter um reizinho ou uma rainhazinha na barriga  e superar os problemas do incio da gravidez , sentiu segurana suficiente para subir a barra dos vestidos bem acima da linha regulamentar. Sem os chumbinhos que seguram a rainha Elizabeth em qualquer tempestade, bastou um ventinho para mostrar que, aos sete meses de gravidez, Kate no tem o menor resqucio de celulite ou estrias. Previsto para meados de julho, o parto ser no mesmo hospital em que nasceram William e o irmo, Harry. 

PROIBIDO PARA CINFILOS
No apenas um, mas dois roubos de jias, um produtor chins que ficou sem nem uma maletinha Louis Vuitton depois que limparam seu quarto de hotel, no sentido figurado, um tiroteio  com balas de festim, soube-se depois do pnico  e beldades de vida alegre em nmero suficiente para esvaziar casas do ramo em toda a Europa. E o Festival de Cannes ainda teve astros e agregados propiciando as cenas a seguir.

O GANSO E A SERPENTE
Na parte de baixo, 350 penas de ganso deram um toque Bjrk ao vestido da atriz JESSICA BIEL. Na de cima, o momento divulgao da joalheria famosa pelas jias em formato de cobras de arte.

ORIGINAL AMPLIADO
KEANU REEVES mesmo ou um ator quase igualzinho inventado pelo sistema dentro do sistema? Para os que acham que Matrix deturpa tudo, ele tinha iate, champanhe e mulher.

CHICANA A VISTA
Num dia, EVA LONGORIA estava em Cannes, levantando a saia at onde a vista no deveria alcanar. No outro, a atriz, de famlia de mexicanos radicados no Texas desde a era pr-EUA, comemorou o mestrado em estudos chicanos.

FAMOSA QUEM?
VICTORIA HERVEY, filha de um marqus ingls com a ex-secretria, tentou de tudo para virar atriz. No conseguindo, enfiou-se assim mesmo no tapete vermelho e teve dilogos speros com seguranas infensos ao: "Sabe quem eu sou?"

NOVO CALIFORNIANO
Moraes Moreira foi a Cannes? Algum parecido? No, basta reparar como ele  a cara do filho: o quadrinista GEORGE DICAPRIO foi assistir  estreia de O Grande Gatsby, novo filme do filho, Leonardo.


2. MEMRIA  O DEMOCRATA RADICAL
Morto aos 88 anos, Ruy Mesquita comandou o Estado desde 1996 e liderou a luta em defesa do estado de direito empreendida pelo jornal h mais de um sculo.
AUGUSTO NUNES

     Neto do Jlio que em 1891 fundou a dinastia, filho do Jlio que entre 1927 e 1969 consolidou o imprio e lhe moldou a alma, irmo do Jlio que at a morte, em 1996, liderou a luta pela preservao das fronteiras em perigo, o jornalista Ruy Mesquita era um prncipe j septuagenrio quando os conselheiros do reino decidiram revogar o direito de primogenitura para entregar-lhe a sala do trono  disfarada de gabinete do diretor responsvel do jornal O Estado de S. Paulo. Nos trinta anos anteriores, o filho do meio do mtico doutor Julinho tivera de contentar-se com o Jornal da Tarde, territrio muito bonito e pouco rentvel doado pelo pai ao jovem redator que esbanjara talento na editoria internacional do Estado. A alterao da rota deu certo. At morrer de cncer neste 21 de maio, aos 88 anos, Ruy Mesquita cansou-se de provar que nasceu para ser Jlio IV. 
     Ele sempre soube disso, atestou a entrevista concedida a Carlos Maranho, de VEJA SO PAULO, logo depois da coroao consumada em 18 de agosto de 1996. "Nada de fundamental vai mudar, pois nossa linha e nossos princpios permanecem os mesmos", avisou. "O que muda  o estilo. Todo grande jornal reflete o estilo de quem realmente manda nele." Na forma, os editoriais ("notas", insistem os Mesquita h mais de 100 anos) tornaram-se ligeiramente menos sisudos. Foram aposentados, por exemplo, arcasmos que j eram grisalhos na corte de dom Joo VI. E sumiram certos sintomas de arrogncia retrica, como o "Estamos  vontade para manifestar nossa opinio sobre...", que abriu incontveis vezes o texto publicado no alto da pgina 3. Mas o contedo seguiu intocado. E o jornal continuou  vontade para manifestar-se sobre qualquer assunto  da guerra do Afeganisto a uma briga de gangues  amparado em certezas que atravessaram inclumes o sculo das grandes transformaes. 
     Durante dezessete anos, armado de uma Olivetti que resistiu bravamente ao advento da era da informtica, o doutor Ruy redigiu quase todos os dias a fala do trono  como se referem os sditos da redao ao editorial principal, que todo Mesquita aprende ainda na infncia a chamar de "primeira nota". Conjugados, os milhares de pargrafos comprovam que, como os antecessores, Ruy Mesquita tambm foi poupado das coceiras da dvida. Se alguma ousasse rond-lo, bastava recordar os ensinamentos do pai e retomar o caminho percorrido sem desvios h bem mais que 100 anos. "Fundado por abolicionistas e republicanos, desde seus tempos iniciais, quando tinha no cabealho o ttulo A Provncia de So Paulo", reiterou em 1998, "este dirio nunca abandonou a trincheira da guerra pelos princpios democrticos, que se baseiam no primado da liberdade de agir. empreender, trabalhar, se reunir e se manifestar". 
     Formulada pelo homem de pensamento, essa declarao de amor  democracia foi reafirmada pelo homem de ao sempre que as circunstncias exigiram que combatesse alm do campo das palavras. Em 1964, convencido de que o estado de direito estava ameaado pela ofensiva esquerdista, Ruy Mesquita juntou-se aos conspiradores que articularam o golpe militar com a mesma determinao exibida pelo democrata radical na oposio aos generais que, com a decretao do Ato Institucional n 5, proclamaram a ditadura escancarada e precipitaram a ruptura com o templo do liberalismo clssico. Na dcada de 70, nos momentos mais sombrios do hiato liberticida, o cinquento que a poliomielite forara a andar at os 8 anos com a ajuda de aparelhos escoltou numerosos jornalistas perseguidos pela polcia poltica. Depois de comunicar aos carcereiros que se haviam tornado, a partir daquele instante, responsveis pela integridade fsica do prisioneiro, voltava  sede do imprio para exigir que fosse libertado. 
     Na edio que homenageou o valente defensor da liberdade morto aos 88 anos, havia apenas o cavaleiro com a trombeta, cercado de branco por todos os lados, no espao reservado  fala do trono, com uma moldura preta que evocava cartes de luto. Nada poderia retratar to nitidamente a paisagem redesenhada pela ausncia. Desde que se intensificaram as dificuldades financeiras, que j afetavam a empresa quando substituiu o irmo Jlio de Mesquita Neto, o doutor Ruy ali se entrincheirou. Sem pacincia para lidar com questes administrativas, escreveu como nunca  em todos os sentidos. Se houver um Jlio V, decididamente no ser to brilhante quanto o grande combatente que partiu.


3. POLCIA  MORTE NA CATEDRAL
O suicdio de um direitista na Notre-Dame mostra como os nimos esto acirrados na Frana. O ovo da serpente pode ser gerado pela intransigncia em nome do progresso mais legtimo.

     Joia da arquitetura gtica e provavelmente a igreja mais famosa do planeta, a Notre-Dame de Paris est comemorando 850 anos do incio da sua construo. Antes mesmo de ficar pronta, em antecipao  sua grandiosidade, a catedral foi cenrio da convocao da Terceira Cruzada. Sculos depois, huguenotes a vandalizaram e revolucionrios ateus a saquearam. Nela, foram coroados reis e um corso autoproclamou-se imperador da Frana. Transposto o incio do sculo XIX, encontrava-se to depauperada que cogitaram demoli-la. A pena de Victor Hugo evitou a tragdia. A operao de salvamento consistiu em escrever um romance com ingredientes de sucesso imediato  o hoje clssico O Corcunda de Notre-Dame. Em paralelo, annimos tambm fizeram o prprio espetculo, ao pularem da sua volta externa, antes aberta  visitao  para no dia seguinte retornarem ao anonimato, agora entre os mortos, sem conseguir uma nota de rodap na histria extraordinria. Com o suicida da semana passada, ser diferente. Pelo mtodo e pelas motivaes, ele estar presente em muitos dos verbetes sobre a Notre-Dame. Dominique Venner, de 78 anos, entrou na catedral na tarde da ltima tera-feira, depositou uma carta no altar e deu um tiro na boca, na presena de 1500 pessoas, entre turistas e fiis.  
     Tal foi o mtodo. As motivaes ficaram claras ainda com a catedral interditada pela polcia. Venner era um extremista de direita que, com o tempo, migrou da ao para a teoria  e voltou para a ao nas suas horas derradeiras. Jovem, ele voluntariou-se para servir como soldado na Arglia, ento colnia francesa, onde entrou para a Organizao do Exrcito Secreto (OAS, na sigla em francs), grupo terrorista formado para exterminar defensores da independncia daquele pas muulmano. Depois de passar um ano e meio preso em Paris, fundou ou ajudou a sedimentar outras organizaes, e por fim tornou-se um idelogo do racismo, da xenofobia, da homofobia. Havia mais de dez anos, Venner atirava da publicao La Nouvelle Revue d'Hisioire, da qual era diretor. Com a promulgao da lei que permite o casamento gay e a adoo e gerao artificial de filhos por casais homossexuais, decidiu ser mrtir das suas causas usando chumbo de verdade. Na carta final, ele escreveu: "Diante dos perigos imensos para a minha ptria francesa e europeia, sacrifico-me para romper a letargia que nos domina. Ofereo o que resta da minha vida com a inteno de protesto e fundao. Escolhi um lugar altamente simblico, a Notre-Dame de Paris, edificada pelo gnio dos meus ancestrais". 
     Neste domingo, outra manifestao contra o casamento gay tomar a capital francesa. O movimento, at pouco tempo atrs, congregava famlias modernas, descendentes diretas de maio de 1968, e homossexuais que no queriam ver replicado o padro htero entre os seus pares. No se opunham  unio civil de gays, e sim ao matrimnio, por discordarem das consequncias filiais. Eles pediam um referendo sobre o tema. O governo passou de trator em cima dessa vontade, qualificando-a de coisa de ultradireitistas. No era s isso. Agora , porque o rtulo afugentou os pacatos que queriam ser ouvidos. Acirraram-se os nimos, e os alvos multiplicaram-se. O ovo da serpente tambm pode ser gerado pela intransigncia em nome do progresso mais legtimo. 
MRIO SABINO, DE PARIS


4. ESPORTE  MAME, EU QUERO MMA
A luta do momento seduz a crianada e se propaga pelas academias. Pelo menos no comeo, os pequenos no saem estropiados, como acontece com os lutadores na TV.

     Escolinha de futebol, bale ou curso de pancada? Essa ltima designao  uma brincadeira, claro. As crianas que esto trocando as atividades fsicas convencionais pelas aulas de MMA, a luta popularizada pelo campeo mundial Anderson Silva, no batem em ningum. Mas gostam dos movimentos simulados do esporte do momento. Crianas e adolescentes so uma fatia importante do pblico das cinco academias que os gmeos magnificamente apelidados Minotauro e Minotouro, conhecidssimos lutadores, abriram em So Paulo, Joinville, Londrina e no Rio de Janeiro (duas), fora mais duas nos Estados Unidos. O negcio vai to bem que outras 21 esto na linha de montagem. "Nas unidades j abertas, 40% dos nossos alunos tm at 18 anos. Esse nmero  o quntuplo do que tnhamos em 2012", informa Rodrigo Nogueira, o Minotauro. 
     A metade desses alunos  formada por meninas. "O bale  muito parado", compara Giulia Godoy, carioquinha de 9 anos. Gulia bateu o pezinho at convencer os pais a matricul-la no curso de MMA Kids. At os 10 anos, as aulas so compostas apenas de instrues sobre golpes bsicos de lutas como jiu-jtsu, carat e boxe, trs das principais modalidades que, aplicadas em conjunto, formam o MMA, ou artes marciais mistas. As crianas no se confrontam e "batem" em sacos de areia ou nos instrutores. A partir dessa faixa etria, as tcnicas se aproximam mais da realidade, mas so controladas. "Se algum aluno se anima muito, ns o tiramos do tatame e o colocamos para assistir aos outros e entender o que ele fez de errado", diz o treinador paulistano Danilo Dourado. Nessa fase, os alunos tambm no se machucam, porque essas lutas no tm os golpes violentos caractersticos do MMA, como cotoveladas na cabea e socos no queixo. 
     A partir dos 15 anos, comeam a ser ensinadas as formas de luta de verdade. "Mas os alunos tm de usar capacete, luvas e proteo para dentes, joelhos e canelas", defende Dourado. Com os golpes, chegam os machucados. A coisa fica mais feia para a minoria de alunos que se interessa em subir ao octgono para valer. "Para quem quer se profissionalizar, os treinos so duros. A, vale quase tudo. S no pode morder nem golpear a nuca", diz Rogrio Nogueira, o Minotouro. No Brasil, apenas os lutadores com 18 anos ou mais podem participar de campeonatos de MMA.  claro que os pais no podem achar que  s colocar os filhos numa academia qualificada e est tudo resolvido. "As crianas associam a aula quilo que veem Anderson Silva fazendo na televiso, com golpes violentos e sangue. Precisam aprender que a luta, na sua idade,  s uma brincadeira", aconselha Ricardo Barros, coordenador de medicina desportiva em pediatria da Sociedade Brasileira de Pediatria. Para monitorar o comportamento do filho, o empresrio carioca Benjamim de Oliveira Pinto s deixou Rafael, de 10 anos, entrar no MMA depois de ele assinar "um termo de compromisso concordando em dizer sempre 'obrigado' e 'por favor', respeitar os amigos e arrumar o quarto'". Se funcionar, provavelmente ser o primeiro milagre de So Anderson Silva.


5. CIDADES - PARIS AINDA MAIS PERTO DO SENA
O rio da capital francesa est para ganhar, em sua margem esquerda, um parque esportivo e cultural com mais de 2 quilmetros de extenso. Sem automveis.
MRIO SABINO, DE PARIS

     O Sena, que corta Paris,  um rio ideal. Ele no  to largo e profundo quanto o londrino Tamisa, e est longe de exibir a vastido marinha do lisboeta Tejo. Comparado ao Tibre, que serpenteia por Roma como um velho cansado, aparenta a vivacidade de uma histria recm-comeada, mas sem a volubilidade do Danbio colecionador das capitais Viena, Budapeste, Bratislava e Belgrado (esclarea-se que os demais regaos urbanos do rio de Paris so mera contingncia hidrogrfica). O Sena  ideal porque proporcional ao magnfico e ao romntico, ao transporte fluvial e aos arrebatamentos de uma caminhada,  alegria dos apaixonados e  tristeza dos realistas, como Honor de Balzac, o romancista, que o considerava to somente uma tentao para o suicdio. Em suas margens, direita e esquerda, aportaram palcios, museus, pontes monumentais, pontes arquetpicas e barraquinhas de sebos resistentes  era digital. Essa viso ganhar em meados de junho, se tudo sair de acordo com o previsto, outro contorno encantador, para usar um daqueles clichs que s Paris permite. Trata-se de um parque esportivo e cultural de 2,3 quilmetros de extenso, logo ali, prximo s guas que, nesta primavera fria, correm mais caudalosas do que na do ano passado, e na penltima, e na anterior a essa, e por a vai. 
     O rio de Paris apresenta dois nveis de orla  o dos quais, ou cais, mais altos, interligados pelas pontes e onde trafega o grosso dos carros, e o das berges, as margens propriamente ditas, descontnuas, coladas ao leito do Sena e, algumas delas, ancoradouros dos barcos tursticos hoje apinhados de chineses que, em terra, vagam pelos bulevares em chinelos. Boa parte das berges, com pouco espao destinado a quem se move a sola, funciona como rota alternativa ao trnsito pesado dos quais. O novo parque representa uma mudana nessa lgica, ao abolir os carros de uma bela poro de beira de rio. Localizado no lado esquerdo do Sena, ele cobrir a distncia que vai da Ponte de lAlma, perto do tnel onde a princesa Diana morreu,  Ponte Royal, que leva ao Louvre. 
     O parque foi projetado para que uma multido use a pista dedicada s corridas perptuas contra a gordura, o stress, a morte cardiovascular. O parque foi concebido para que abrigue um jardim flutuante, composto de cinco ilhas artificiais. O parque foi pensado para que, na altura da monumental Ponte Alexandre III, sirva de palco a manifestaes artsticas  que, espera-se, no signifiquem apenas algazarras multiculturais. Consta do cardpio um restaurante vizinho que... ter igualmente programao artstica. Melhor pular esse trecho. Continuando: o parque foi imaginado para que, quase em frente ao Museu d'Orsay, abrigo da maior e melhor coleo de pinturas impressionistas do mundo, uma escadaria conecte margem e cais. Nas noites de vero, principalmente, ela se transformar em arquibancada de um cinema ao ar livre, o telo colocado sobre o rio, adaptao parisiense do extinto costume das vilas do interior. O parque foi imaginado, no menos importante, para que se veja o rio passar. 
     Integrar ainda mais o Sena  vida da cidade, e preserv-lo da degradao do trnsito,  a cruzada do prefeito socialista Bertrand Delano. Em "berges" da direita, foram realizadas reformas no ano passado. Para a raiva dos motoristas, afunilou-se a via asfaltada, ampliou-se um calado e construiu-se um jardinzinho perto do Hotel de Ville. Simptico, com uma vista linda. Em 2002, em seu primeiro mandato, Delano decidiu interditar um trecho do mesmo lado do rio, para criar a Paris Plage  um montinho de areia, com palmeirinhas e chuveiros, que nos veres  usado, conceda-se, como praia. As medidas do prefeito atravancaram os "quais", embora a administrao municipal tente negar a evidncia.  verdade que Paris conta com  um sistema de transporte pblico eficiente. No entanto, por causa dos preos impraticveis dos imveis, muita gente se mudou para os arredores  e passou a pegar o automvel para trabalhar na cidade, j que a malha de trens no d conta desse novo pblico. Entre o Sena e os carros, Delano escolheu o rio. Fez a opo certa. Que, mais dia, menos dia, se desatem os ns de trnsito, no importa o preo. O Sena  o rio ideal.

OS RATINHOS ESTO MAIS ASSDUOS
Os peculiares hbitos higinicos franceses j haviam feito dos camundongos (os souris) uma tradio das brasseries parisienses. Cada uma delas, praticamente, tem o seu roedor visitante, tratado como uma espcie de bicho de estimao pelos garons. "No, ele s fica no salo, jamais vai para a cozinha", garantem a quem ousa aprofundar o assunto, em oposio ao que ocorre no desenho animado Ratatouille, inspirado na onipresena dos pequenos roedores. Pois , ratinho parisiense  respeitador de, pelo menos, uma regra sanitria. A novidade  que, com as obras nas margens do Sena e a cheia sazonal do rio, uma grande quantidade de souris foi desalojada do seu habitat preferido  e, assim, eles passaram a ser clientes mais assduos das brasseries e at de restaurantes chiques, como o do Grand Palais (que colocou um gato a postos, nos intervalos de funcionamento, para caar os "ratatouilles"). Os ratinhos da hora do jantar agora tambm podem comparecer ao almoo. Se voc estiver em Paris e vir um souris numa brasserie, o recomendvel  mostrar o mesmo enfado dos empregados quando deparam com o espanto dos turistas. Afinal de contas, c'est normal.


6. COMPORTAMENTO  FILHOS? NO, OBRIGADA
O grupo de brasileiras que diz no  maternidade encabea uma revoluo de costumes que j comea a mudar a cara do Brasil e do mundo.
GABRIELE JIMENEZ

O nmero de famlias brasileiras sem filhos cresce trs vezes mais do que o daquelas com crianas
Fonte: Cognatis Geomarketing

     Nascida e criada na segunda metade do sculo XVIII, a escritora inglesa Jane Austen, genial autora de Razo e Sensibilidade e Orgulho e Preconceito, diz numa carta a um parente que acabara de ganhar um sobrinho: "Tenho salientado, sempre que possvel, a importncia das tias". Jane era, ela mesma, tia das mais dedicadas, uma forma de compensar, para si e para a sociedade, o fato de nunca ter se casado nem tido filhos. Decididamente uma falha naqueles tempos em que se esperava de todas as moas que fizessem logo as duas coisas e assim cumprissem o destino bblico inexorvel da perpetuao da espcie. Casar e ter filhos. Esse mandamento resistiu a todas as ondas de modernidade, da pioneira conquista do direito de voto at a plula e a presena relevante nas universidades e no mercado de trabalho. Resistiu at aos novos arranjos familiares trazidos pelo divrcio e pelos recasamentos. Seja pai separado, me separada ou vrios sobrenomes sob o mesmo teto, dava-se como certo que, em havendo famlia, haveria crianas. Isso no  mais to certo assim. 
     Um dos mais espantosos dados do ltimo Censo do IBGE produz uma fotografia das brasileiras que esto prestes a cruzar a fronteira dos 50 anos  no fim, portanto, do ciclo reprodutivo. Para surpresa dos especialistas, o grupo das que chegaram l sem filhos expandiu-se 20% apenas na ltima dcada, algo impressionante do ponto de vista demogrfico. Entre as mulheres que tm no currculo um diploma de ensino superior, pouco mais de um quinto optou por no experimentar a maternidade. Em sua anlise da composio das famlias brasileiras, Reinaldo Gregori, doutor em demografia pela Universidade da Califrnia, em Berkeley, concluiu que aquelas que no tm crianas sero mais e mais comuns: seu nmero se multiplica em um ritmo trs vezes mais rpido do que o das famlias com filhos. "Quando se nota essa escolha at em casais bem jovens,  sinal de que a tendncia  continuar aumentando a proporo de famlias sem filhos no Brasil", diz Gregori, da consultoria Cognatis, em So Paulo. 
     A nica coisa que se pode dizer com certeza a esta altura  que as famlias sem filhos nunca sero maioria nas estatsticas. Se isso viesse a ocorrer, os processos de despopulaco se tornariam to agudos que as sociedades deixariam de produzir o nmero mnimo de novos indivduos para a manuteno da espcie. Mas esse cenrio extremo  altamente improvvel (veja a entrevista na pg. 122), o que no invalida o fato, demograficamente comprovado, de que h mais mulheres que optam por no ter filhos agora do que havia alguns anos atrs.
     Diz a antroploga Mirian Goldenberg: "Como j se constata com toda a fora nos pases mais desenvolvidos, muitas brasileiras no se sentem mais presas ao conceito de que a felicidade passa necessariamente pela maternidade". Na Alemanha, quase um tero das mulheres com diploma de ensino superior passa dos 40 sem filhos. Apenas uma gerao atrs, a histria era outra  dentro e fora do Brasil. As mulheres que no conseguiam dar filhos ao marido, como se dizia, eram consideradas e se sentiam seres incompletos. O primeiro abalo sofrido por essa viso naturalista da maternidade veio, como no poderia deixar de ser, da intelectualidade. 
     A francesa Simone de Beauvoir, no livro O Segundo Sexo, de 1949, ps em dvida a tese at ento incontestvel de que ser me era inerente  prpria condio feminina. Beauvoir e seu marido, Jean-Paul Sartre, comeavam a experimentar a liberdade de pensamento e das escolhas individuais, proposta lanada no sculo XIX pelo dinamarqus Soren Kierkegaard que eles recuperaram e popularizaram com o nome de existencialismo. Para os filsofos existencialistas, ao contrrio do que se passa com os animais, nada, ou quase nada, deve ser considerado natural no ser humano. "No homem, a existncia precede a essncia." Esse era seu lema, sem dvida, revolucionariamente libertrio em meados do sculo passado. Com essas lentes intelectuais, Simone de Beauvoir no poderia mesmo ver a maternidade como uma essncia da mulher. Ela teria de ser parte da existncia, da "realidade humana concreta, da escolha e do compromisso pessoal" de que falava Kierkegaard. Para a parceira de Sartre, a maternidade como obrigao era equivalente a uma pena de priso. A possibilidade de viver uma vida plena e feliz sem filhos foi ento sendo lentamente aceita. A reflexo intelectual de Beauvoir levou ao feminismo, ao women's lib, os movimentos de emancipao pessoal, sexual, social e profissional da mulher. A revoluo no estudo do papel dos hormnios e outras substncias qumicas no comportamento humano viria, mais tarde, chancelar a formulao filosfica do existencialismo em relao  maternidade. Um desses hormnios, a oxitocina,  responsvel pela sublime sensao de plenitude que as mes sentem quando amamentam ou afagam seus bebs. Mulheres incapazes de produzir tal hormnio no experimentam essas sensaes. A descoberta dos efeitos da oxitocina contribuiu para separar a maternidade da essncia feminina. A filsofa francesa Elisabeth Badinter, 69 anos, autora de O Conflito: a Mulher e a Me, teve mais sorte que Simone de Beauvoir, que morreu em 1986 sem saber dos efeitos do hormnio. Badinter conheceu as pesquisas e refletiu sobre a condio feminina  luz desse conhecimento. Ser uma me perfeita passou a representar no mais uma obrigao, mas o resultado da confluncia de inmeros fatores culturais, sociais e qumicos. Afirmou Badinter a VEJA: "Firmou-se a convico equivocada de que a me deve sacrificar tudo pela criana o tempo inteiro, o que assusta muitas candidatas. A verdade  que a me perfeita  to rara quanto um Mozart". 
     A libertao da mulher, em resumo, significou a capacidade de fazer escolhas  at mesmo sobre ter ou no filhos. Quase metade das brasileiras trabalha fora, cerca de 50% mais do que no fim da dcada de 60. O casamento e a maternidade vo sendo empurrados para a frente em nome da liberdade e do trabalho. A maioria das brasileiras atinge o pice profissional um pouco depois dos 40, quando sente que o momento para ser me j se foi. Quanto mais educadas e bem-sucedidas, mais elas tm se revestido de coragem para se desviar daquilo que todo mundo sempre viu como seu destino inescapvel. Scia de um escritrio de advocacia, Letcia Queiroz de Andrade, 39 anos e casada h quinze,  integrante do grupo de mulheres que decidiram, desde muito cedo, no enveredar pelo universo das fraldas e mamadeiras. "No sou nenhum monstro egosta, s no tinha a ver comigo. Sempre quis me superar na carreira e entendi que um filho seria um obstculo nessa busca", diz a advogada. 
     Mulheres como ela expem o complicado desafio de encontrar um ponto de equilbrio em meio ao feroz mundo corporativo de que trata a americana Sheryl Sandberg, ungida nas ltimas semanas  condio de guru de um novo feminismo. Sheryl defende a tese de que a mulher s ascender profissionalmente se deixar de se comportar como vtima e passar a agir como os homens. Ela sabe do que fala  no comando da empresa Facebook,  uma das mais poderosas executivas dos Estados Unidos. Aos 43 anos, casada e, sim, com dois filhos, Sheryl obviamente acha possvel ser me e progredir na carreira, mas alerta: mesmo as mais ambiciosas, ''tradas pela dona de casa que existe dentro delas", s vezes arrefecem o ritmo em nome da prole, ainda que sem perceber, e ficam estagnadas. "So pequenas atitudes que as vo deixando para trs.  a advogada que resolve no se candidatar a scia do escritrio ou a vendedora que escolhe atuar numa rea menor", exemplifica Sheryl em seu livro. Esse durssimo dilema pesa como chumbo sobre as mulheres  e elas j se sentem livres para pender para o trabalho. 
     "Fao o que quero e quando quero. A ideia de ter uma pessoa completamente dependente de mim sempre me assustou", diz a pedagoga paulista Silvia Neves, 38 anos, casada h dezesseis. "Se tenho instinto maternal, acho que o transferi para meus cachorros", brinca a jornalista Ana Paula Russo, 42 anos, de Porto Alegre. Silvia e Ana Paula so fruto de um longo processo de libertao feminina. Elas podem falar livremente de suas escolhas. Isso  uma novidade. "Hoje j no sinto tanto a carga, mas quando me casei, h vinte anos, todo mundo me cobrava. Resolver no ser me ainda  muito mais difcil do que decidir ser", diz a atriz Totia Meireles, 54 anos, mulher sem filhos muito bem resolvida. Uma parte das que se veem enredadas pela presso procura ajuda especializada para tratar do assunto, deixando entrever o preconceito do qual so alvo, ora velado, ora escancarado. "J at ouvi de casais sem filhos que um determinado amigo no os deixou ficar perto dos seus por considerar que eles no gostavam de criana", relata a psicloga Maria Rios Lima. 
     Os demgrafos comeam a estudar os desdobramentos do encolhimento da populao de crianas e jovens em paises mais desenvolvidos  as childless societies. "No vejo nenhuma fora que estimule homens e mulheres do mundo atual a retornar ao antigo padro de famlias numerosas", observa o demgrafo checo Toms Sobotka. Pelo menos metade da populao mundial vive hoje em lugares onde as taxas de fecundidade se situam abaixo do chamado ndice de reposio, de 2.1 filhos por mulher.  esse o caso do Brasil, onde a mdia nacional caiu para 1,9 (um tero do registrado nos frteis anos 1940). Em raros cantos do planeta, porm, as mulheres esto tendo to poucos filhos quanto na Alemanha e no Japo, empatados no topo do ranking da fecundidade com a mdia de 1,4. Na virada demogrfica em andamento, h pases onde o nmero de habitantes j diminuiu e outros que marcham firmemente nessa direo, como mostra o quadro na pgina 116. 
     A queda no nmero de nascimentos tem tirado o sono dos estudiosos, que tentam antecipar seus efeitos. Os mais preocupantes so a reduo do contingente economicamente ativo, que pode trazer enormes prejuzos  economia, e o aumento do nmero de idosos, que tende a desestabilizar os sistemas previdencirios. O consenso, no entanto,  que h tempo para os pases se ajustarem  nova realidade, racionalizando gastos e ganhando em produtividade de modo a tornar essa transio mais tranquila. No Brasil, a expectativa de vida ao nascer chegar aos 75 anos j neste ano. "Nosso sistema de aposentadoria precisa ser totalmente reformulado, para no atravancar o crescimento", alerta o demgrafo Jos Eustquio Diniz Alves, da Escola Nacional de Cincias Estatsticas do IBGE. Visto de outro prisma, o fenmeno demogrfico em curso abre uma oportunidade nica para a educao. Com menos crianas,  possvel investir mais e melhor em cada uma, esculpindo talentos que podem dar conta, afinal, do grande desafio imposto pelas populaes envelhecidas: fazer mais com menos gente.

"ESCOLHI O DOUTORADO"
Casada h quinze anos, a advogada Letcia Queiroz de Andrade, 39, teve certeza de que no queria filhos quando, com um mestrado recm-concludo, viu a chance de engatar um doutorado. Ela tinha ento 34 anos. "Era ser me ou mergulhar a fundo no meu Ph.D. Fiquei com a segunda opo", conta Letcia, que hoje  professora universitria e scia de um dos maiores escritrios de advocacia do pas, em So Paulo. Vez ou outra, ela sente que lhe torcem o nariz, mas, muito firme na deciso que tomou ao lado do marido, no se abala. "No sou desumana nem desprovida de emoes. Simplesmente priorizei a carreira", diz.

ELA MUDOU DE IDEIA
H vinte anos, a atriz Totia Meireles, 54, j era casada com o atual marido e tentou engravidar, sem sucesso. Queria tanto ser me que decidiu se submeter a um tratamento. Mas, aos poucos, foi se dando conta de que estava muito mais movida pela ideia de que a maternidade era um passo natural e esperado do que propriamente pela vontade de se tornar me. Quando chegou o resultado negativo da primeira fertilizao, no lugar da frustrao veio o alvio. Ela suspendeu o tratamento, a carreira deslanchou e o casamento s se fortaleceu. No foi fcil. Todos os seus sete irmos tm filhos  e ela, dezenove sobrinhos. "Naquele tempo, era mais dura a deciso de no ter filhos do que a de ter", lembra a atriz.

NO ME VIA NA FUNO
Aos 42 anos, a gacha Ana Paula Russo chegou a cogitar ter filhos. Mas a verdade  que no me via na funo. Ia para casa de amigas com crianas e saia apavorada, brinca a jornalista, hoje solteira, que tambm pesou racionalmente sua deciso. Acho que, para ter um filho no mundo de hoje,  preciso dar a eles a s melhores oportunidades, e tive medo de no conseguir, conta Ana Paula, que se diz 100% realizada na companhia dos cinco ces ao lado.

"AINDA ME COBRAM"
A pedagoga Silvia Neves, 38 anos, frustrou a famlia quando decidiu, de pleno acordo com o marido, o webdesigner Marcus Vincius Neves, 44 (na foto), no engravidar. Casados h dezesseis anos, recaa sobre os dois, no pais convictos, a expectativa de que fossem dar seguimento ao cl. Mas isso, na verdade, nunca esteve nos planos de Silvia. "Sempre tive claro para mim que preservar minha liberdade vinha em primeiro lugar", diz ela, que vive em Belo Horizonte. De vez em quando,  alvo da presso de conhecidos inconformados com sua opo. Alguns voltam a insistir na ideia da maternidade. " engraado como, at hoje, muita gente ainda acha que ser me  pr-requisito para uma vida plena e feliz", comenta a pedagoga.

ALEGRIA DE SER TIA
A corretora de imveis Bica Miranda, 39 anos, teve vrios relacionamentos srios, mas no encontrou ningum que imaginasse no papel de pai, e foi empurrando a maternidade. At que ela prpria deixou de se ver como me. "Minha vida est completamente preenchida sem filhos. Sinto que o momento passou", diz a mineira, que hoje vive imersa em uma rotina de trabalho sem horrio fixo no Rio de Janeiro, onde mora h dez anos. Atualmente solteira, Eria conta que exerce o lado maternal convivendo com os filhos de amigos prximos. Eles so habitus de sua casa. Me realizo bem na funo de tia. As crianas me adoram", gaba-se.

OS FILHOS DELE
Ainda no incio do namoro, a empresaria Morghana Oliveira, 31 anos, deixou claro ao futuro marido que filhos, definitivamente, no estavam em seus planos. Ela tinha apenas 20 anos, mas uma convico inabalvel. A revelao no chegou a abater o tambm empresrio Reginaldo Vieira, 41 anos (na foto), de quem se tornou scia em uma empresa de transporte de carga em So Paulo. quela altura, ele j era pai de trs filhos do primeiro casamento, hoje adolescentes, com quem Morghana tem tima relao. Mas na educao da prole do marido ela nunc se meteu. Vejo como  durssimo impor limites nos dias de hoje. Os pais devem sofrer, diz a empresria, que no pretende experimentar.

"CONSEGUIREMOS NOS ADAPTAR"
O demgrafo checo Toms Sobotka, do Instituto de Demografia de Viena,  um dos grandes estudiosos da queda de fecundidade e seus efeitos no mundo. Ele falou sobre a inevitabilidade de viver em sociedades com um nmero cada vez menor de crianas.

A queda generalizada nas taxas de fecundidade  em si um problema? 
Na maioria das vezes, esse  um processo lento, gradativo, e os pases tm tempo para se reorganizar, neutralizando os efeitos da transio demogrfica. Mas h casos em que a populao encolhe rpido demais e a economia sente o baque. Esses, sim, so preocupantes. 

O que faz o declnio populacional ser to acelerado em certas naes europeias? 
A juno de dois fatores demogrficos: poucos nascimentos e muita gente deixando o pas ao mesmo tempo. Como o grupo que mais emigra  justamente o de pessoas entre 18 e 25 anos, ainda com famlia por formar, o impacto  enorme. Isso j aconteceu em pases como Bulgria, Hungria e Ucrnia, depois da queda do regime comunista. 

O nmero de filhos por mulher nunca foi to baixo na Europa. Como as economias podem se recuperar com cada vez menos braos? 
No reforo a corrente dos pessimistas. Mesmo nos pases em que a situao  mais grave do ponto de vista da fecundidade, como Espanha e Itlia, ainda h muito espao para reformas que podem ajudar a minimizar os efeitos da perda populacional e dar um empurro na economia. 

Que reformas so essas? 
 preciso tentar aumentar a empregabilidade dos jovens e a participao das mulheres no mercado de trabalho, e tambm elevar a idade para a aposentadoria. Em pases onde as pessoas vivem em mdia at os 80 anos, se elas se aposentarem aos 60 vo passar duas dcadas no cio, embora ainda tenham condies de continuar sendo produtivas.  um total desperdcio de recursos, impensvel nesta nova era de fazer mais com menos. 

Como elevar a produtividade aos nveis desejados? 
A populao ativa deve ser usada em sua capacidade mxima. Isso quer dizer que os governos tm de garantir ensino de alto padro, da pr-escola   universidade, a cada vez mais gente. Em outra frente,  preciso otimizar recursos, adaptando os investimentos em infraestrutura  nova realidade demogrfica. No Brasil, por exemplo, j h lugares em que a demanda por asilos  maior do que a necessidade de novas escolas. Ajustar-se aos novos tempos pode trazer at mais benefcios  economia do que colocar mais bebs no mundo. 

D algum resultado prtico incentivar as famlias a ter mais filhos? 
Muitos pases esto debatendo hoje polticas prnatalidade, mas a experincia mostra que nem sempre elas surtem efeito. Houve uma mudana de mentalidade, e no so as campanhas que vo alterar isso. Os europeus at declaram em pesquisas de opinio que gostariam de ter dois filhos, mas as taxas de fecundidade real esto sempre abaixo disso. Existe uma clara lacuna entre o que as pessoas dizem e o que de fato fazem. 

As sociedades com menos crianas so uma realidade irreversvel? 
No vejo nenhuma fora que estimule homens e mulheres do mundo de hoje a voltar a ter muitos filhos. Os casais ambicionam carreiras bem-sucedidas, duas rendas, frias, e vo adiando o ciclo da vida: sada de casa, casamento, maternidade. Nas prximas duas ou trs dcadas,  muito provvel que at os pases africanos cheguem aos dois filhos por mulher, contra a mdia atual de cinco. , sem dvida, uma transformao radical, mas nem de longe suficiente para temermos a extino da espcie humana. Ela j deu mostras de que saber se adaptar  nova realidade demogrfica.


